Para além de Spotlight

Equipe Christo Nihil Praeponere

Blog. Padre Paulo Ricardo

Foi durante a nona estação da Via Crucis que o então Cardeal Joseph Ratzinger proferiu aquele desabafo constrangedor. Ainda soam frescas em nossas memórias as suas lamentações: “Quanta sujeira há na Igreja, e precisamente entre aqueles que, no sacerdócio, deveriam pertencer completamente a Ele”. Era a Semana Santa do ano de 2005, e o Papa João Paulo II havia pedido justamente ao prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé — o homem que, por vários anos, teve de lidar diretamente com os sacerdotes transgressores — a preparação dos textos meditativos da Paixão de Cristo. Na época, não havia como não relacionar as palavras do cardeal aos escândalos de pedofilia outrora descobertos.

Recentemente, a pedofilia voltou a aterrorizar os fiéis católicos do mundo todo, após a Academia de Cinema ter condecorado Spotlight com o Oscar de melhor filme do ano. Para quem não sabe, o filme trata da cobertura que o jornal americano Boston Globe fez acerca dos crimes sexuais do padre John Geoghan, e de como, ao longo de 36 anos, esse mesmo sacerdote pôde circular tranquilamente por suas paróquias, graças à proteção do bispo. Quando o caso veio à tona, em 2002, uma série de outras denúncias surgiram, pelo que se descobriu a grande máfia que havia por de trás daqueles monstruosos abusos. Tratava-se, evidentemente, de um esquema diabólico de acordos e ameaças, que envolvia clérigos, advogados e familiares — um show de horrores.
É claro que escândalos como esses, que trazem a marca de um sacerdote, de um “homem de Deus”, por assim dizer, chocam e minam a credibilidade da Igreja. Como continuar a professar o Creio depois de tantas demonstrações de fraqueza e malícia por parte do clero? Essa pergunta se impõe e exige uma tomada de posição. Embora se possa criticar um ponto ou outro de Spotlight, a verdade é que o filme não é nada anticatólico — no sentido de um panfleto contra a Igreja —, mas uma imagem assustadora de crimes reais praticados por padres e acobertados por quem estava mais preocupado com a estética do que com a dignidade das vítimas. Não se pode negar, fatos são fatos.
Outro fato, porém, é que a Igreja Católica, enquanto instituição divinamente fundada por Jesus, não pode ser confundida com os pecados de seus membros — ainda que estes façam parte da hierarquia e ocupem os cargos mais altos do clero — “nem é sua culpa se alguns de seus membros sofrem de chagas ou doenças”, como recorda o Papa Pio XII [1]. Uma coisa é o Corpo Místico de Cristo, ao qual se deve toda veneração, outra bem diferente são as estruturas humanas que, por sua própria natureza, estão sujeitas ao erro. São Pedro apascentou as ovelhas de Cristo durante longos anos, mas isso não o impediu de negar Jesus por três vezes. Judas era um dos doze apóstolos — era uma das colunas —, e mesmo assim a sua traição levou o Filho de Deus para o sacrifício na cruz. Vemos, portanto, que os escândalos clericais existem desde o início do cristianismo, desde o momento em que Jesus decretou que Simão seria a rocha da Igreja, para depois repreendê-lo e chamá-lo de “pedra de tropeço” por deixar-se levar por insinuações diabólicas.
Aliás, longe de manifestarem qualquer deficiência da Igreja, esses escândalos reforçam o caráter infalível e perpétuo dela, como continuação da Encarnação de Cristo na história, necessária à salvação, uma vez que nenhuma outra instituição no mundo sobreviveria por tantos anos, tendo à sua testa homens tão débeis, a não ser que fosse pela graça divina. É por isso que, na contramão daqueles bispos e sacerdotes que, temendo prejudicarem a própria imagem, optaram por acobertar esses crimes ao invés de denunciá-los, os grandes santos e pastores da Igreja nunca silenciaram acerca da má conduta de padres e religiosos; antes, fizeram ecoar aos quatro cantos da terra o horror que era para Deus e para o mundo a podridão dentro do ministério sagrado, quando exercido por homens vaidosos e dissimulados.
No século XI, período em que a Igreja sofria terrivelmente com a má disciplina dos sacerdotes, São Pedro Damião fez-se ouvir pelo papa Leão IX com o que poderíamos considerar o Spotlight da época. No Liber Gomorrhianus (Livro de Gomorra), o doutor da Igreja escreveu abertamente sobre as imoralidades dos clérigos da época, inclusive sobre abusos contra menores, exortando o Santo Padre a tomar providências urgentes contra aqueles crimes. Como projeto de reforma, o santo não propunha apenas mudanças estruturais e burocráticas — apesar de serem necessárias, é verdade —, mas, principalmente, a busca pela santidade através da fidelidade às virtudes cristãs, como castidade, oração, penitência etc. Em suma, o caminho de reforma proposto por São Pedro Damião era nada mais que o velho mas sempre eficaz caminho da mística e da ascese, infelizmente abandonado nos dias de hoje, pelo que podemos compreender os motivos da nova crise.
Talvez seja possível dizer que o erro de Spotlight, bem como de toda a crítica secular, é que ela não abraça a totalidade da situação e acaba por omitir o mais importante remédio para o problema. É fora de dúvida que a Igreja deve oferecer uma resposta concreta a cada caso de abuso sexual, punindo exemplarmente tanto pedófilos quanto acobertadores, e procurando reparar, na medida do possível, as chagas que foram abertas por seus crimes. Toda essa sujeira, no entanto, encarada com olhar sobrenatural, indica uma “crise de santos” [2]. Quando se perde a dimensão da busca pela santidade, seja entre progressistas, seja entre conservadores, o resultado só pode ser o escândalo e a corrupção a níveis desastrosos, sobretudo no meio clerical. Bem disse Bento XVI que, entre os fatores que contribuíram para a crise, estava “a tendência, até da parte de sacerdotes e religiosos, para adotar modos de pensamento e de juízo das realidades seculares sem referência suficiente ao Evangelho” [3]. Sem o desejo sincero de conformar-se a Jesus, nada pode assegurar uma vocação.
A Igreja, por sua vez, brilha e segue sua caminhada por esta terra, sabendo que “não são as maiorias ocasionais que se formam (…) que decidem o seu e o nosso caminho”. Pelo contrário, os santos “são a verdadeira maioria determinante segundo a qual nos orientamos”, pois “eles são os nossos mestres de humanidade, que não nos abandonam nem na dor e na solidão e na hora da morte caminham ao nosso lado” [4]. Por isso, ainda podemos crer com a Igreja e sentirmo-nos seguros dentro desta barca, que apesar de agitada pela tempestade, navega firmemente até o seu destino final.
Como rezou o Cardeal Ratzinger durante a Via Crucis de 2005, rezemos também nós: “Tende piedade da vossa Igreja: também dentro dela, Adão continua a cair. Mas Vós Vos erguereis. Vós Vos levantastes, ressuscitastes e podeis levantar-nos também a nós. Salvai e santificai a vossa Igreja. Salvai e santificai a todos nós.”

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